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A Piada Infinita na revista Time Out

por Quetzal, em 22.11.12

 

Vasco Telles de Menezes está habituado a ver os livros como material de trabalho mas daí a cortá-los ao meio para fazer melhor o seu ofício vai uma grande distância. Ou ia, porque foi isso mesmo que aconteceu com A Piada Infinita: “pela primeira vez cortei um livro para poder manuseá-lo melhor”, conta o tradutor de 34 anos, que pela primeira vez também teve de arranjar uma espécie de cavalete para pousar o exemplar original e garantir que, lado a lado com o ecrã do computador, não saltava nenhuma das muitas linhas escritas em letra minúscula. “Sempre que saía para trabalhar lá ia eu com o cavalete e o livro desconjuntado na mala de pôr a tiracolo.”

 

Durante seis meses, Vasco e o pai, o também tradutor Salvato Telles de Menezes, de 63 anos, não fizeram mais nada senão olhar para aquilo que muitos apontam como a grande obra-prima do norte-americano David Foster Wallace (1962-2008), uma comédia colossal passada num futuro próximo e que é ao mesmo tempo uma sátira ao mundo da publicidade e do entretenimento, um livro sobre as relações humanas e a felicidade ou ainda um tratado sobre a solidão contemporânea (entre tantas outras coisas). Vasco ficou com uma metade das 1200 páginas, o pai com a outra, um a trabalhar em Lisboa e o outro em Cascais – cinco páginas nos dias bons –, ambos a aproveitarem a proximidade familiar para as muitas reuniões que foram necessárias para que no fim não se notasse que o livro tinha sido vertido para português a quatro mãos. No fim, ambos afirmam sem rodeios: foi o livro mais difícil que já traduziram.

 

“É um livro gongórico, colossal”, diz Salvato Telles de Menezes, que não chegou a cortar o seu exemplar mas teve de trabalhar sempre com uma régua lupa. “Está cheio de referências, alusões, influências extraordinárias que o Foster Wallace organiza magistralmente, numa espécie de caos controlado. Na minha opinião”, continua o tradutor, que durante muitos anos foi professor de literatura norte- -americana, “não acho que o modelo de construção narrativa do livro seja o Ulisses, como já se tem dito. As referências estão lá, mas o verdadeiro modelo é o Moby Dick, que por alguma coisa se chamou de chowder, caldeirada”.

 

Nessa caldeirada não contam apenas as muitas linhas narrativas que se cruzam a dada altura em A Piada Infinita – e que pedem a paciência do leitor – mas também várias características que são verdadeiras dores de cabeça para um tradutor. “É um livro sobre a língua e para além de ter imensas personagens, cada uma tem a sua forma específica de falar”, diz Vasco. “Ele leva o inglês a um patamar superior.” Para além disso há muito calão, muitas siglas, “frases intercaladas que se prolongam por duas ou três páginas, estrangeirismos às vezes propositadamente mal escritos, jogos fonéticos e até neologismos que não estão identificados por itálicos ou qualquer coisa do género”. Como se não bastasse, acrescenta Vasco, “há ainda uma profusão de referências literárias, de baixa e alta cultura, e muitas referências cinéfilas. Dá a ideia de que ele leu tudo e verteu tudo para este romance-súmula”.

 

Algumas referências os tradutores identificaram – “as que nos pareciam menos óbvias ou mais ligadas à própria cultura americana”, diz Salvato –, outras não, até porque já havia 388 notas de rodapé. Sim, 388, e não umas notas de rodapé quaisquer. “Algumas são reparos, e até bastante jocosos, outras são mesmo a continuação da história e estão cheias de diálogos”, explica Vasco. “Aliás, costuma-se dizer que normalmente um tradutor fica contente quando há diálogos ou notas porque isso significa que se pode descansar um bocadinho, mas aqui nem isso acontecia.”

 

É descansar agora que o livro chega às livrarias, mesmo a tempo de assinalar os 25 anos da editora que o resolveu pôr cá fora.

 

Aqui.

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publicado às 15:20


1 comentário

De José Couto a 20.12.2012 às 19:03

Pois... mas é uma obra-prima que terá de ser lida no original, não na edição da Quetzal, que segue o novo acordo ortográfico... ao contrário de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, que graças ao tradutor, Jorge Pereirinha Pires, não segue essa aberração! Já antes o afirmei e repito: comigo, e com muito boa gente que conheço, não se gastará um céntimo em livros cujo texto siga o NAC; sempre haverá outras editoras e outros tradutores avessos ao carneirismo típico dos portugueses (ironia da situação: agora não é só Angola que se opõe ao NAC, é também o Brasil - deixem-me rir...).

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